A capoeiragem da antiga

O Rio de Janeiro teve a capoeira mais desenvolvida de todas as cidades portuárias brasileiras durante o século XIX. As famigeradas maltas de capoeira formaram-se ao redor do largo de uma igreja e seu território adjacente. Durante as últimas décadas do Império do Brasil, essas maltas estavam congregadas em duas federações mais abrangentes, os Nagoas e os Guaiamus. Os Nagoas aliaram-se ao partido conservador e os Guaiamus, aos liberais, ajudando estes partidos a manipular eleições. Por isso, o novo regime republicano decidiu erradicar as maltas de capoeira logo após a proclamação da República, em novembro de 1889. Centenas de capoeiras conhecidos foram presos e desterrados para a ilha de Fernando de Noronha e outros locais distantes. A prática da capoeira e as maltas foram proibidas pelo novo código criminal da República. Capoeiras podiam ser presos e condenados a trabalhos forçados por até seis meses, devendo os chefes de maltas receber pena dobrada.

Assim, a capoeira desapareceu das ruas do Rio de Janeiro. Mas o quanto sobreviveu em lugares mais escondidos é matéria de controvérsias. Algumas pessoas sustentam que as técnicas de capoeira ainda eram ensinadas em bairros populares ou favelas. Prata Preta, um líder da Revolta da Vacina, em 1904, usou suas habilidades de capoeira para defender as barricadas de seu bairro, a Saúde, na área portuária (cena representada à esquerda, numa caricatura publicado pela revista O Malho).

Algumas das técnicas corporais foram recicladas na batucada ou pernada carioca, uma brincadeira que acompanhava as rodas de samba informais. Outras técnicas, em particular os golpes, começaram a ser ensinadas, a partir de 1931, em academias de artes marciais por professores como Jaime Ferreira e Sinhozinho. Muitos malandros usavam técnicas de capoeira nas brigas de rua. O mais famoso destes é, de longe, Madame Satã. A sua história é contada no cordel de autoria de Lobisomem, que você pode baixar aqui. Sete Coroas, outro malandro famoso, supostamente foi um dos professores de Satã. Rômulo Costa Mattos, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio de Janeiro, pesquisou a sua história e teve a gentileza de disponibilizar seu artigo para o nosso website.

Práticas de combate de origem africana não se desenvolveram apenas em ambiente urbano. A região das fazendas de café do interior do Estado, ao longo do vale do Paraíba, é conhecida por sua dança de umbigada, o jongo. No pós-abolição, os trabalhadores livres das fazendas também continuaram a jogar pau, até pelo menos a década de 1970, quando essa prática declinou. O jogo do pau usa não somente ataques e defesas de cacete, mas também recorre a rasteiras e negativas como existem na capoeira. O filme documentário Versos e cacetes (2009, 37 min) documenta essa prática no Vale do Paraíba.

 

 

Para saber mais:

Bretas, Marcos L., A queda do império da navalha e da rasteira (A Républica e os capoeiras), Estudos Afro-Asiáticos, No. 20 (1991), pp. 239-256.

Holloway, Thomas, “A Healthy Terror”: Police Repression of Capoeiras in Nineteenth-Century Rio de Janeiro’, Hispanic American Historical Review, Vol. 69 (1989), No. 4, pp. 637-76.

Pires, Antonio Liberac Cardoso Simões, Culturas circulares. A formação histórica da capoeira contemporânea no Rio de Janeiro. Curitiba: Ed. Progressiva, 2010.

Soares, Carlos Eugênio Líbano, A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro, 1808-1850. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

Soares, Carlos Eugênio Líbano, A negregada instituição. Os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1994.

 

 

 

 

One comment on “A capoeiragem da antiga

  1. Paulo Salmon on

    Boa tarde. Estás e outras artes da nossa cultura, são pouco conhecidas da maioria dos brasileiros. Penso que deveria haver mais comprometimento das autoridades na divulgação e apoio às iniciativas como esta. Recebam os meus cumprimentos.
    Mestre Paulinho Salmon. Rio de Janeiro.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *