Mestre Leopoldina – parte 2

Por Nestor Capoeira

O mestre

Quinzinho (aprox.1925-1950) foi um jovem marginal temido e bastante conhecido em sua época. Drauzio Varela, o médico da Penitenciária do Carandiru que escreveu um livro de grande sucesso e que mais tarde virou filme, menciona Quinzinho em seu Estação Carandiru (SP, Cia. das Letras, 1999, p. 270):

Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha… Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários como Meneguetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha, e Promessinha, fizeram de seu Valdo um homem de respeito no presídio.

Leopoldina contou (num depoimento a Nestor Capoeira, gravado em DVD, em 2005, Mestre Leopoldina, o último bom malandro), como conheceu seu primeiro mestre, Joaquim Felix, o Quinzinho, por volta de 1950; quando Leopoldina tinha uns 18 anos de idade e Quinzinho tinha, talvez, uns 23 anos de idade.

Leopoldina: “Eu olhava pra ele [Quinzinho], olhava para os caras em volta, e ele berrava pra mim ‑ ‘Desembandeira!’. Quando eu me preparava pra atacar, ele fazia aquelas coisas com o corpo. Eu pensei: ‘Vou matá-lo!’. Dentro da Central do Brasil, escondido nos trilhos, eu tinha uma faca de 8 polegadas que eu costumava esconder ali. De madrugada, eu pegava a faca e caía na noite. Então eu deixei o Quinzinho e entrei na Central pra pegar aquela faca. Neste momento, um jornaleiro que nunca mais vi, acho que já morreu, chamado Rosa Branca, me perguntou: ‑ ‘o que é que tá acontecendo?’. Ele me viu muito agitado e perguntou: ‑ ‘o que é que tá acontecendo?’. Eu respondi: ‑ ‘Quinzinho roubou o meu chapéu e eu vou dar uma facada conversada nele’.”

Leopoldina explicou o que é a facada conversada:

A facada conversada é o seguinte: eu teria de esperar pelo momento em que ele estivesse bebendo, aproximar por trás, bater no seu ombro para que ele se virasse. Quando ele se virasse eu furava ele pela frente, não pelas costas. Porque se eu fosse preso depois eu teria consideração na cadeia: ‑ ‘Esse é malandro, deu uma facada conversada no cara’. Mas se eu esfaqueasse pelas costas eles iam dizer: ‑ ‘Covarde’, e iam descer o pau”.

Para a sorte de Leopoldina, Rosa Branca acalmou-o e ele não procurou Quinzinho. Pouco tempo depois, Leopoldina estava num ponto final de ônibus e encontra Quinzinho mais uma vez:

Leopoldina: “Mineiro Bate Pau, um outro cara chamado Peão, Testa de Ferro também desceu do ônibus, e aí, Quinzinho. Quando eu vi Quinzinho, eu gelei e pensei: ‘É agora!’ Mas ninguém ali sabia do ocorrido entre nós e começaram a falar comigo. Quinzinho, vendo que eu era respeitado e amigo da malandragem, se aproximou e disse: ‑ ‘Eu não quero problema com você, porque você é malandro’. Ele estava segurando uma cuíca e passou ela pra um dos caras. Ele passou a cuíca e, de repente, me deu uma geral (revistar alguém a procura de armas)! Imagina só. Ele disse: ‑ ‘Eu não quero problema com você porque você é malandro, etcetera e tal’, e em seguida me deu uma geral!”

As semanas vão passando e Leopoldina, que está louco para aprender capoeira, vai, aos poucos, se aproximando de Quinzinho:

Leopoldina: “Eu disse: – ‘Quinzinho, quero te pedir um favor’. ‘O que?’, ele respondeu desconfiado. ‘Eu quero que você me ensine capoeira’. ‘Então vai no Morro da Favela amanhã’. Puxa, eu não ficaria tão feliz se alguém me desse um milhão de reais. Aquele primeiro dia, eu voltei pro Morro do São Carlos e fui dormir na esteira. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Meu corpo todo estava doendo. E ao mesmo tempo, eu estava preocupado que ele não ia querer mais me ensinar. ‘Como é que eu vou?’, e na Favela ainda tinha que subir mais de uns cem degraus. Então eu fui no dia seguinte e disse pro Quinzinho: ‑ ‘Não pude vir porque estava todo doído’. E ele, sem me dar papo: ‑ ‘É assim mesmo, é assim mesmo’. E começou a me ensinar: ‑ ‘faz assim…. faz assim’.”

Aí, um dia o Juvenil apareceu. Ele disse alô, olhou pra mim e disse: ‑ ‘Vamos brincar?’ Eu olhei pro Quinzinho e como ele não disse nada, eu respondi: ‑ ‘Vamos’. O Juvenil tirou o chapéu, o colete, a gravata, e ficou nu da cintura pra cima, e nós começamos a brincar. Mas assim que nós começamos a brincar, ele me deu um chute que me pegou de raspão na cabeça. O Quinzinho estava sentado com a 7.65 enfiada na cintura. Ele estava de shorts. Naquele tempo (aprox. 1955) se usava short de futebol e não essas sungas de hoje. Todo mundo usava shorts. E ele estava com um lenço no colo, escondendo a pistola. Quando o Juvenil deu aquele chute, Quinzinho se levantou e enfiou a pistola na cara do Juvenil: ‑ ‘Não faça isso! Não faça isso, senão ele fica covarde!’.”

Elegância no traje e esmero no berimbau: Mestre Leopoldina. Foto: Acervo André Lacé.

O marginal e o mestre

Eu acho esta história, contada pelo Leopoldina, incrível. Vejam bem: o Quinzinho era um jovem e perigoso marginal, chefe de quadrilha. Quando o então jovem Leopoldina o conheceu, por volta de 1950, Quinzinho já carregava algumas mortes nas costas e já tinha tirado tempo na Colônia Penal. Poderíamos pensar o Quinzinho como uma espécie de herdeiro da violenta capoeira praticada pelas maltas cariocas nos anos 1800.

O Quinzinho, na verdade, não tinha nem um método de ensino estruturado; como já existia na Bahia, com mestre Bimba, desde 1930; ou com Sinhozinho, no Rio, no mesmo período. Leopoldina explicou como Quinzinho ensinava: ia jogando com o aprendiz e dizendo: “Faz assim… Faz assim”. No entanto, quando encarnava o “mestre de capoeira”, Quinzinho tinha uma ética impecável. Mais impecável ainda, pois naquele tempo, o Rio dos 1950, aluno aprendia capoeira levando porrada pra “ficar esperto”. E até hoje, mesmo que o mestre não bata nos aprendizes (alguns batem), é comum os alunos mais experientes (e/ou mais fortes) descascarem os iniciantes (e/ou mais fracos).

Eu vejo esta passagem como algo muito emblemático na complexidade do mundo da capoeira, com seus bizarros paradoxos, que, na verdade, não parecem tão estranhos assim, para aqueles que têm o corpo e a cabeça feitos pelos fundamentos da malícia.

O método de ensino de Artur Emídio

Mestre Leopoldina conta que o método de ensino de Artur Emídio era baseado em sequências semelhantes às de Bimba, mas realizadas ao som de berimbau tocado em ritmo rápido.

No início, segundo Leopoldina, quem tocava o berimbau na academia de Artur era mestre Paraná, outro baiano que se tornou conhecido no Rio e foi mestre, entre outros, de mestre Mintirinha. Artur só começou a tocar berimbau mais tarde.

Artur, como todo mestre, preocupava-se com a perpetuação do seu estilo. Leopoldina, por volta de 1963, começou a frequentar uma roda informal de angoleiros, estivadores do Cais do Porto, que se realizava no quintal da casa de um deles no subúrbio carioca. Artur reclamou que Leopoldina estava ficando “muito lento”, se deixando influenciar pela angola quando, segundo Artur, Leopoldina deveria “impor seu jogo”.

Veja mais

O documentário Mestre Leopoldina – O Último Bom Malandro traz a entrevista que Leopoldina concedeu a Nestor Capoeira. Veja aqui. a segunda parte.

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2 comments on “Mestre Leopoldina – parte 2

  1. Sidnei Secretário on

    Treinei com o MESTRE LEOPOLDINA,na Gardênia Azul,de 1994 até 2001,e tudo que o Senhor,relata é muito importante para as pessoas conhecerem o GRANDE MESTRE e saberem da sua importância no mundo da CAPOEIRA.

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    • daflon on

      Obrigado, Sidnei. Se você quiser, pode postar aqui um breve depoimento dessa sua convivência com o Mestre Leopoldina, na Gardênia Azul.
      Um abraço. A equipe do projeto.

      Responder

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