Mestres A – Z

A mestria na capoeira foi informal durante grande parte de sua história. No Rio de Janeiro do tempo das maltas, ao longo do Império, jovens capoeiras, chamados caxinguelés, aprendiam em morros ou praias orientados por praticantes mais velhos e experientes, a quem o cronista Melo Morais Filho já considerava mestres, mesmo condenando as suas ações (2002, p. 329). Muitos capoeiras reconhecidos por sua destreza, façanhas e mandinga viveram antes de 1930. A fama de alguns como Besouro, na Bahia; Nascimento Grande, em Pernambuco; e Manduca da Praia, no Rio de Janeiro ‑ chegou até os dias de hoje.

Praia de Santa Luzia, circa1893/1894. Foto de Juan Gutierrez (1859-1897) – Museu Histórico Nacional/Wikicommons. Vista tomada do morro do Castelo. A praia em frente da igreja de Santa Luzia (torre em primeiro plano) foi um dos lugares onde se ensinava capoeira durante o Império.

Mas é somente com um grupo de capoeiras baianos nascidos no final do XIX, e ainda vivos na década de 1930, que será reconhecido pela primeira vez o título de mestre dessa arte por um público mais amplo. Aberrê, Antônio Maré, Bimba, Pastinha e Samuel Querido de Deus são os mais afamados dessa primeira geração de mestres de capoeira da modernidade, seguidos pela geração de Cobrinha Verde, Juvenal, Noronha, Onça Preta, Paraná e Waldemar.

Vários deles vieram ao Rio de Janeiro apresentar a sua arte, o que contribuiu para a divulgação da capoeira baiana. Desses, apenas Oswaldo Lisboa dos Santos e Cícero Navarro ‑ mas conhecidos como Paraná e Onça Preta ‑ estabeleceram-se no Rio de Janeiro. Onça Preta nasceu em 1909 e veio para o Rio na década de 1950, onde faleceu em 2006. Paraná nasceu em 1922 e veio para o Rio em 1945, onde morreu em 1972. Outro baiano dessa geração, Joel Lourenço, também teve papel de destaque na capoeira do Rio na década de 1950.

A estes três se juntou uma geração de capoeiristas nascidos na década de 1930 e que constituíram o núcleo a partir do qual se desenvolveu a “capoeira contemporânea” no Rio de Janeiro: os mestres Artur Emídio, Leopoldina, Mário Buscapé, Djalma Bandeira, Roque, Paulo Gomes e Celso do Engenho.

Existe também uma linhagem carioca antiga (ou pré-moderna) da capoeira, mesmo que seja mais invisível. Os mais conhecidos dessa geração que ainda conseguiu transmitir algo para a capoeira contemporânea em formação são Madame Satã (1900-1976) e Quinzinho, o professor de Leopoldina. Não sabemos praticamente nada sobre Quinzinho e seus companheiros como Sete Coroas.

Depois de mais de um século de estigmatização e repressão, a capoeira passou, desde o Estado Novo (1937-45), por um processo de institucionalização. As federações de capoeira criadas em muitos estados na década de 1970 são um exemplo desse processo, que também gerou polêmicas e dissidências, ao ponto de os maiores grupos não fazerem parte dessa estrutura mais oficial. Mais recentemente, a capoeira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Estado brasileiro (2008) e pela UNESCO (2014). Após ouvir muitos mestres durante o processo de patrimonialização, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) estabeleceu que os saberes e as práticas dos capoeiristas enquanto cultura precisavam ser reconhecidos e divulgados. O IPHAN implementou dois registros: a Roda de Capoeira e o Ofício de Mestres de Capoeira, enfatizando que “o objetivo dos Registros […] foi o de valorizar a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão. O reconhecimento da capoeira como patrimônio demarca a conscientização sobre o valor da herança cultural africana” (2017, p. 9).

O site capoeirahistory subscreve esses objetivos do registro e salvaguarda da capoeira. Nessa seção do site, o propósito é valorizar a contribuição de mestres no Rio de Janeiro, muitos dos quais caíram no esquecimento, sobretudo entre os capoeiristas mais jovens. Esse resgate da ancestralidade da capoeira será feito através de minibiografias dos mestres e clipes documentários. Também intentaremos contribuir para uma reflexão sobre as genealogias e narrativas genealógicas na capoeira.

Há certo consenso de que quatro linhagens foram os principais protagonistas na formação da capoeira contemporânea carioca: Artur Emídio, Paraná, Mário Buscapé e Roque. Segundo Mestre Levi, esses quatro “é que começaram o trabalho em espaço fechado em academia, questão de uniforme, organização e tal. Desses quatro é que surgiu a maioria dos Mestres de capoeira aqui do Rio de Janeiro, a maioria veio de uma dessas quatro escolas.” (entrevista, 05/09/2018). Outro protagonismo importante veio de um grupo inicialmente sem mestre: o grupo Senzala. A dinâmica da interação entre essas quatro linhagens, majoritariamente localizado na zona norte da cidade e na Baixada Fluminense, e o grupo Senzala, estabelecido na zona sul, pode explicar o desenvolvimento da capoeira contemporânea no Rio de Janeiro.

Nesse ABC, tentamos resgatar os nomes de capoeiristas atuantes no Rio de Janeiro, começando pelas décadas de 1950 e 1960 (e acrescentaremos, em seguida, as décadas de 70 e 80). Na ausência de uma historiografia muito consistente, garimpamos informações em entrevistas, em jornais da época e em alguns websites, como as biografias escritas por Jefferson Estanislau da Silva da FCDRJ (Federação de Capoeira Desportiva do Rio de Janeiro). Contamos também com a ajuda de consultores, principalmente dos mestres Bebeto, André Lacé, Paulão e Soldado, para redigir esses pequenos verbetes. São apenas minibiografias, mas, ainda assim, esperamos que sejam úteis para quem quer saber mais sobre os capoeiristas do passado no Rio de Janeiro, e sua impressionante história que tanto contribuiu para a capoeira dar a volta ao mundo.

É um começo. Correções e adições são bem-vindas para o email capoeirahistory, adicionar arroba e gmail.com.

Para saber mais:

Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira : apoio e fomento. Coord. Rívia Ryker Bandeira de Alencar. Brasília : IPHAN, 2017.

Moraes Filho, Mello. Capoeiragem e capoeiras celebres (Rio de Janeiro). In: Festas e Tradições populares do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 325-33. (A primeira edição é de 1888).

Para biografias de mestres baianos, ver www.velhosmestres.com

 

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