Madame, o Satã da Lapa

Geisa Rodrigues

“Num abrir e fechar de olhos suas mãos se transformavam em pés e os pés, em volteios alucinantes, agrediam com a violência de um bate-estaca. Mil de vezes sumiu dentro do próprio corpo flexível e magro como junco, e outras mil de vezes reapareceu mais adiante, esquivando-se aos golpes dos chanfalhos, eficientemente usados pelos homens simples do povo, e agora nada podendo contra o mulato só.” (Mario Lago)

A epígrafe acima traz a descrição da primeira visão que Mario Lago teve de Madame Satã, na Lapa dos anos 1930, registrada no livro “Na rolança do tempo”.  Assim como neste exemplo, as peripécias corporais do célebre malandro ilustraram inúmeros textos e narrativas sobre a Lapa e a malandragem carioca. Seja por assumir e exercer de forma livre sua sexualidade, seja por ser reconhecido pela força e agilidade com que desferia golpes de capoeira sobre seus adversários e desafetos, João Francisco dos Santos, vulgo Madame Satã, se destacava exatamente por colocar em cena um corpo que desafiava as normas vigentes.

Vindo do sertão de Pernambuco ainda adolescente, João passou a habitar o submundo da Lapa entre putas, estrangeiros, pequenos golpistas e boêmios. Ganha a alcunha de Madame Satã em 1938, mas bem antes disso já era conhecido das ruas da Lapa e das páginas policiais dos jornais. O negro valente e homossexual, exímio capoeirista, que circulava pelo ambiente boêmio da Lapa, eventualmente fazendo serviços de proteção a casas noturnas e pequenos golpes, aos poucos foi criando fama, principalmente a partir das aparições numa mídia que já naquela época apoiava-se na espetacularização da criminalidade.

Conforme declarava, teria nascido em 1900. Ou seja, o personagem Madame Satã vai se configurando junto com o processo de modernização do Estado Brasileiro, no início do século XX. Um dos desafios deste “Estado moderno” seria lidar com elementos marginais à racionalidade e à moral que configurariam uma “sociedade moderna”, no caso, ex-escravos, descendentes, imigrantes e toda uma população analfabeta e beirando a miséria que habitava um mundo à parte, difícil de ser controlado e compreendido. Na contramão dos acontecimentos e excluída do processo social, essa população marginalizada, constituída em grande parte por negros e migrantes, criou códigos e normas próprios, com seus personagens e atores sociais, entre eles o malandro.

O cenário da Lapa era marcado pela forte presença de elementos da cultura negra, como o samba, a capoeira e a culinária.  E, se por um lado no Brasil do início do século XX se desenrolava um projeto de embranquecimento da população, incentivando a vinda de imigrantes de países europeus, por outro havia um processo de “africanização” e reafirmação da cultura negra, principalmente com o aumento do fluxo de ex-escravos vindos da Bahia para o Rio de Janeiro, fundamentais nos processo de reorganização urbana e sócio-cultural da cidade. Sem dúvida alguma, os elementos desta cultura negra popular carioca, como o samba e a capoeira, vão compor estratégias de resistência cultural do negro marginalizado após a abolição da escravatura.

Mas, se esses componentes funcionaram inicialmente como estratégia de resistência, há também o momento em que são capturados e passam a compor uma identidade nacional que politicamente interessava ao Estado no período. Esse processo de “domesticação” passa, principalmente, pela integração à indústria cultural. Em resenha sobre o livro A construção do samba, de Jorge Caldeiras, o jornalista e escritor Fernando Marques observa que o autor aponta certo acordo simbólico em que as elites passaram a avalizar o gênero, principalmente a partir da sua comercialização. Contrário à ideia do samba como espaço de troca entre comunidades e classes sociais, Caldeiras aponta que esta apropriação contribuiu para a criação de uma paisagem mítica, de uma imagem de país favorável ao Estado getulista.

De fato, a implantação do Estado Novo, na década de 1930, corresponde ao momento de transição para um Brasil moderno e, aliada a diversos outros fatores advindos da “modernidade”, decreta a extinção da Lapa como República popular da malandragem. As transformações culturais do samba, da capoeira e da malandragem, entre outras, ao serem elevadas à categoria de símbolos nacionais, foram acompanhadas de novos significados político, econômico, social e cultural, representando, então, uma tentativa de controle de suas mensagens como produção cultural das classes populares. Da mesma forma, o corpo de Madame Satã também sofreu com estas modificações. Em 1946, passou a engatar uma prisão após a outra. Na década de 1950 passa uma grande temporada no presídio da Ilha Grande. Segundo narra em seu livro de memórias, quando retorna à Lapa, já na década de 1960, está com 62 anos: “Havia mais Lapa no meu peito, do que naquelas ruas e prédios novos que iam subindo no lugar dos antigos”. O velho corpo de malandro cansado resolve fixar moradia na Ilha Grande. Satã passa a viver pacatamente na Ilha Grande, cozinhando para fora, se ocupando de tarefas domésticas em casas de ex- oficiais e funcionários do presídio e criando filhos adotivos.

Em 1971 Madame Satã é “redescoberto” por jornalistas de O Pasquim, concede uma entrevista ao jornal que o traz de volta à fama, ainda que temporariamente, e um ano depois “publica” suas memórias. Volta a circular pelo Rio de Janeiro, participa de peças e shows, mas em pouco tempo retorna para a Ilha Grande. Segundo alguns depoimentos, estaria preparando um segundo livro de memórias. Em 1976 se despede da vida, vítima de câncer pulmonar. Seu corpo está enterrado no cemitério da Ilha Grande. Mas ao longo dos anos Madame Satã ainda será figurado e reconfigurado inúmeras vezes, a partir de pontos de vista diferentes e de contextos e filiações políticas diversos, sendo constantemente reinventado, em livros sobre a Lapa e a malandragem, trabalhos acadêmicos, como enredo de escola de samba, nome de boate e rádio comunitária, personagem de quadrinhos e de novela, tema de filme e de peças de teatro,  entre outros. E de vez em quando, como nessas linhas, ouve-se ecoar:

Eis, o malandro na praça outra vez.

Geisa Rodrigues Leite da Silva é mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e Doutora em Letras pela PUC-Rio. É professora no Departamento de Comunicacão Social da UFF desde 2003 e pesquisadora associada ao BITS – Núcleo de Pesquisa, Produção e Extensão Multimídia da Comunicação Social. Seu livro, As múltiplas faces de Madame Satã (EdUFF 2013), é o estudo mais completo sobre o personagem.

http://www.eduff.uff.br/index.php/livros/221-as-multiplas-faces-de-madame-sata

© Geisa Rodrigues e Projeto Capoeira Contemporânea no Rio de Janeiro

 

One comment on “Madame, o Satã da Lapa

  1. José Roberto Rocha on

    Muito bom ….tive a sorte de ver este personagem famoso,em ação…..
    Bem na entrada da Lapa,onde hoje temos a Sala Cecília Meireles…..batendo em 4 (primeiro 2 e mais 2 que chegaram)policiais…em 1956..

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