Aonde a gente chegou, hein!

Julio Cesar de Tavares – Prof. Titular de Antropologia da UFF

Quem seria capaz de imaginar há um século, que hoje a capoeira estaria no mundo, de modo absolutamente independente e carreando, a cada dia, mais e mais adeptos para a arte do jogo da vadiação?

Certamente, não foi sem sofrimento, esforço e dedicação. Tampouco foi sem humilhação, frustração, perseguição e exclusão. A capoeira por definição nativa foi, é e continuará sendo a arte da dissimulação (ginga/mandinga), seja na Capoeira Regional, Angola, Contemporânea ou Independente, e profundamente inquietada pela ação rebelde (resistência dissimulada/resiliência) contra as injustiças do Estado sobre o cotidiano dos indivíduos e grupos sociais subalternizados. Este é, quer se queira, quer não, um dos aspectos mais intrigantes, em quaisquer de suas vertentes ou denominação ‑ a permanência da comunicação libertária, demonstrada pelo interesse de indivíduos potencializados por uma determinada condição de rebeldia ao se deixarem atrair pela capoeira. Emergindo em permanentes recriações e projeções pela população afrodescendente, há na capoeira uma carreira infindável de criatividade para além das próprias condições que a criaram.

A despeito de se encontrar no seu fazer, até o início do século XX, concentrada nas camadas mais subalternas da população dos grandes centros urbanos, como em Salvador, Rio de Janeiro e Recife, e além de ser classificada por conceitos obscuros e malignos, repletos de associações negativas, a capoeira sempre conseguiu circular por outras camadas sociais e magnetizar indivíduos de outras origens étnico-raciais. Por isso mesmo, sempre demonstrou uma gigantesca plasticidade na ultrapassagem de fronteiras raciais e sociais. E, de modo surpreendente, adentrou ambientes totalmente característicos da Casa Grande, embora preservando o traço, a marca, a linguagem, a levada, o ritmo, a nostalgia e lamentos típicos da tradição ancestral presente na musicalidade negra africana em toda sua diáspora. Este processo paradoxal permitiu que a capoeira se recriasse e se adaptasse às demandas de um mundo em permanente transformação, que, a cada dia, se refunda sob o signo do que denominamos contemporâneo.

Hoje, em pleno 2020, a capoeira não somente se ancora, crescentemente no conhecimento apurado, cuidadoso e meticulosamente centrado na pesquisa técnica, fisiológica, musical e artesanal, como tem suporte nos diversos campos acadêmicos da História, Antropologia, Etnomusicologia, Artes da Performance, Literatura, Educação Física, etc. O que mais nos chama a atenção é a velocidade com que tudo isso se deu. Em pouco mais de meio século – se consideramos 1966 o marco da expansão da capoeira.

Sim, Mestre Pastinha estive presente no I Festival das Artes Negras, em Dakar, Senegal, e daí a música de Caetano que canta: “Pastinha já foi à África, Pastinha já foi a África, pra mostrar capoeira do Brasil” (…) E lá apresentou, no solo do continente mãe, a matriz da locomoção africana celebrada na ginga da diáspora, o fato transnacional de maior relevância, que foi a inserção da capoeira no mundo, no contexto daquele primeiro grande encontro pan-africano e afrodiaspórico. O I Festival de Arte Negra, em Dakar, em 1966, com a presença do Mestre Pastinha, enunciava ao mundo a assimetria dinâmica, a movimentação ritmada conduzida pela “levada” do berimbau, em sincronicidade múltipla com a infinita combinação de movimentos no chão, em pé, em voo e, ainda, acrescida de ludicidade, brincadeira e permanente alegria e sorriso de encantamento.

Dali em diante, a capoeira ganhou o mundo. Conseguiu disseminar em velocidade exponencial sua fenomenal expansão, até então impossível de imaginar. Testemunhamos que tudo ocorrera de maneira suave e cautelosa, canibalizada pelo mundo e exemplificada como sintoma da emergente transnacionalização da cultura afro-brasileira.

Depois de sua apresentação na África, a capoeira se expande pelos Estados Unidos e Europa, ainda no final dos anos 1960. Até que Katherine Dunham, a dileta aluna do antropólogo M. Herskovits e considerada por Levi-Strauss a fundadora da Antropologia da Dança, com seu exame etnográfico das danças religiosas do vodu e da santeria no Haiti, interfere no rumo da cultura afro-brasileira.

E o fez, transcendendo a dimensão coreográfica, ao aliar o corpo do capoeirista a uma política diaspórica de reconhecimento e visibilização. Dunham realiza este fato por intermédio de um gesto profissional ao contratar praticantes de capoeira, como, por exemplo, Eusébio Lobo, o Mestre Pavão (hoje professor da Unicamp), para sua companhia de dança e, ainda, como professor auxiliar de suas aulas na Universidade de Saint Louis e no desenvolvimentgo de sua Companhia de Dança, a “Katherine Dunham Company”, composta exclusivamente por negros e especializada neste tipo de dança.

Mas é preciso dizer também qua, além do gesto profissional para com a Capoeira e o capoeirista-professsor Eusébio, Katherine realizou um gesto político de enorme grandeza para o Brasil. Trata-se da denúncia pública de racismo que ela fez, em 1950, quando esteve em visita ao Brasil, em temporada com a sua Companhia, muito antes de contratar Eusébio que só ocorrerá nos anos 60. Então, nesta passagem pelo Brasil ela foi proibida se hospedar no Hotel Esplanada de São Paulo, que não aceitava negrso como hóspedes. Consciente politicamente de seu papel e origem étnico-racial, a humilhação do racismo tupiniquim não conseguiu calá-la pois o fato se transformou em escândalo nacional, sacudindo o meio político, jurídico e intelectual. Gilberto Freyre, Afonso Arino e parlamentares iniciam uma grande mobilização que demonstrasse a não-impunidade para casos como este.

De fato, Afonso Arinos aprova a primeira Lei Anti-racista no Brasil, que leva o seu nome: Lei Afonso Arinos de 1951. Gilberto Freyre sobre o caso sacudiu os meios políticos e culturais e o projeto do Deputado Afonso Arinos foi aprovado por adesão total. A Lei Afonso Arinos, de 1951, hoje revogada. Katherine Dunham deu uma contribuição involuntária para a aprovação da primeira lei que tentou punir a discriminação racial no Brasil.

Regressando à Capoeira, como imaginar a capoeira registrada como patrimônio imaterial brasileiro em 2009? Menos provável seria prever a circulação da categoria “patrimônio imaterial”, hoje corrente no campo dos estudos antropológicos e históricos sobre Patrimônio. No início dos anos 1980, isso era tão inviável de imaginar quanto a queda do muro de Berlim (1989). Hoje, solidamente instalada em mais de 150 países (em alguns, inclusive, como parte integrante de políticas oficiais em educação), a capoeira se encontra em franca expansão, do mesmo modo que ocorreu com o jazz, jiu-jitsu, judô, o balé e a música clássica, exemplos de grandes performances, musical e corporal, que alcançaram expressão transnacional.

Imaginem que, neste preciso momento em que trafegamos, por entre estas letras e linhas, dezenas de milhares dos mais de duzentos mil praticantes de capoeira, em todo o mundo, estão cantando uma chula, tocando um instrumento e jogando um jogo na roda de capoeira! Podem vocês ainda imaginar que esse jogo, com vários séculos de origem e cujos jogadores se comunicam nesta prática por intermédio do idioma português brasileiro, ganhou o mundo, conquistou adeptos e se expandiu sem que houvesse qualquer interferência do estado brasileiro para que tal ocorresse? Essa força da diáspora da capoeira é testemunhada por nossos diplomatas e reconhecida pelo Ministério das Relações Exteriores, que reitera a onipresença, fulgor e vitalidade dessa arte-jogo-luta em sua importante função na disseminação do idioma corporal e vernacular brasileiro.

Constatamos que, de fato, a capoeira é uma performance-luta-jogo interseccional que se edifica como uma arte do movimento em meio a uma constelação de muitas outras artes. Certamente, é nesta teia complexa de conexões que a caracteriza – corpo em movimento, música, canto, lírica poética das ladainhas e artesania de instrumento –, que se encontra o grande poder, magia, encanto e mistério da capoeira. E assim, magnetizando centenas de milhares de praticantes, se multiplica por toda a Europa, por todos os estados dos Estados Unidos, países da América do Sul, vários países do Oriente Médio, Ásia e África, além dos países do Caribe.

Trata-se de uma arte que experimenta a interseccionalidade. Articula e se tematiza em múltiplas outras artes como na literatura (por exemplo, na obra de Jorge Amado), na sua crescente presença no cinema, novelas, teatro, dança, artes plásticas e, ultimamente, em jogos digitais. Alcança o reconhecimento cabal de sua extensiva força performativa da cultura afro-brasileira e de todo esforço transnacional da comunidade capoeirista.

Rigorosamente, admite-se que a capoeira denota efetiva contribuição ao desenvolvimento de múltiplas habilidades cognitivas. Por isso, este patrimônio brasileiro deveria integrar a educação escolar, da infância à universidade, como expressão tradicional da prática afro-brasileira de resistência/resiliência, de extrema coordenação motora, que integra, em harmonia e assimetria, uma combinação indissolúvel de múltiplas inteligências. Incorporada ao repertório cultural da pedagogia nacional, torna-se uma atualizada representação pós-colonial da resistência à dominação e às injustiças cognitivas. Converte-se a fantástica arte da dissimulação numa verdadeira epidemia transnacional, que encanta e apaixona homens e mulheres, crianças e adolescentes, adultos e idosos, todos pelo mundo. Ao mesmo tempo, promove uma permanente reinvenção dos movimentos, apuração técnica e sensibilidade estética em corpos de sujeitos encarnados de memória corporal singular e global.

Confira ainda do autor o livro Dança de Guerra.

Existe um aspecto que precisa ser apontado como de grande relevância neste processo de expansão de fronteiras da capoeira. Sim, podemos dizer que a capoeira expandiu as fronteiras da cultura nacional pois quebrou a visão provinciana que amarrava a ideia de cultura no Brasil enquadrada em noções localizadas no Brasil de dentro com uma cultura de fora. De repente, capoeiristas acreditaram que expandiriam as fronteiras do Brasil ao levar uma cultura desde o mais de dentro dos mundos do Brasil para os mundos bem de fora. Neste processo, a cultura de dentro foi levada para o mundo de fora. Eis que, a capoeira e outras culturas de dentro compartilham esta invasão ao mundo de fora, como a puxada de rede, o samba de roda, o maracatu, o maculelê, o jongo, todos conduzidos em articulação com a capoeira, em demonstrações públicas, como pertencentes a uma rede cultural marcadamente afro-brasileira em diáspora pelo mundo.

Este faro, fato e fator demarca a produção de lideranças da arte da capoeira, os Mestres, que hoje precisam ser mais bem dimensionados. Ao encabeçar este avanço pelo mundo de uma larga rede de culturas Made in Brazil com marca, matriz e motricidade afro-brasileiras, a capoeira consolida uma inquestionável liderança não refletida, ainda que manifestada. Desta forma, foi estabelecido um verdadeiro empreendimento cultural, em algum momento desafiante para muitos daqueles heróis fundadores, que ousaram partir sem muito tino do que poderiam semear. Alguns não conseguiram ver a criação deste marco globalizante, tampouco a pujança do que se tem instalado como capoeira no mundo. E como está a gestão por detrás desta máquina potente da sabedoria corporal e quem a domina, de fato, nos ambientes mais lucrativos? Os afro-brasileiros? Por quê? Uma pergunta que precisa ser conhecida para que se revele o papel explícito da política da prática transnacional da capoeira.

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Mestre Leopoldina – parte 2

Por Nestor Capoeira

O mestre

Quinzinho (aprox.1925-1950) foi um jovem marginal temido e bastante conhecido em sua época. Drauzio Varela, o médico da Penitenciária do Carandiru que escreveu um livro de grande sucesso e que mais tarde virou filme, menciona Quinzinho em seu Estação Carandiru (SP, Cia. das Letras, 1999, p. 270):

Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha… Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários como Meneguetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha, e Promessinha, fizeram de seu Valdo um homem de respeito no presídio.

Leopoldina contou (num depoimento a Nestor Capoeira, gravado em DVD, em 2005, Mestre Leopoldina, o último bom malandro), como conheceu seu primeiro mestre, Joaquim Felix, o Quinzinho, por volta de 1950; quando Leopoldina tinha uns 18 anos de idade e Quinzinho tinha, talvez, uns 23 anos de idade.

Leopoldina: “Eu olhava pra ele [Quinzinho], olhava para os caras em volta, e ele berrava pra mim ‑ ‘Desembandeira!’. Quando eu me preparava pra atacar, ele fazia aquelas coisas com o corpo. Eu pensei: ‘Vou matá-lo!’. Dentro da Central do Brasil, escondido nos trilhos, eu tinha uma faca de 8 polegadas que eu costumava esconder ali. De madrugada, eu pegava a faca e caía na noite. Então eu deixei o Quinzinho e entrei na Central pra pegar aquela faca. Neste momento, um jornaleiro que nunca mais vi, acho que já morreu, chamado Rosa Branca, me perguntou: ‑ ‘o que é que tá acontecendo?’. Ele me viu muito agitado e perguntou: ‑ ‘o que é que tá acontecendo?’. Eu respondi: ‑ ‘Quinzinho roubou o meu chapéu e eu vou dar uma facada conversada nele’.”

Leopoldina explicou o que é a facada conversada:

A facada conversada é o seguinte: eu teria de esperar pelo momento em que ele estivesse bebendo, aproximar por trás, bater no seu ombro para que ele se virasse. Quando ele se virasse eu furava ele pela frente, não pelas costas. Porque se eu fosse preso depois eu teria consideração na cadeia: ‑ ‘Esse é malandro, deu uma facada conversada no cara’. Mas se eu esfaqueasse pelas costas eles iam dizer: ‑ ‘Covarde’, e iam descer o pau”.

Para a sorte de Leopoldina, Rosa Branca acalmou-o e ele não procurou Quinzinho. Pouco tempo depois, Leopoldina estava num ponto final de ônibus e encontra Quinzinho mais uma vez:

Leopoldina: “Mineiro Bate Pau, um outro cara chamado Peão, Testa de Ferro também desceu do ônibus, e aí, Quinzinho. Quando eu vi Quinzinho, eu gelei e pensei: ‘É agora!’ Mas ninguém ali sabia do ocorrido entre nós e começaram a falar comigo. Quinzinho, vendo que eu era respeitado e amigo da malandragem, se aproximou e disse: ‑ ‘Eu não quero problema com você, porque você é malandro’. Ele estava segurando uma cuíca e passou ela pra um dos caras. Ele passou a cuíca e, de repente, me deu uma geral (revistar alguém a procura de armas)! Imagina só. Ele disse: ‑ ‘Eu não quero problema com você porque você é malandro, etcetera e tal’, e em seguida me deu uma geral!”

As semanas vão passando e Leopoldina, que está louco para aprender capoeira, vai, aos poucos, se aproximando de Quinzinho:

Leopoldina: “Eu disse: – ‘Quinzinho, quero te pedir um favor’. ‘O que?’, ele respondeu desconfiado. ‘Eu quero que você me ensine capoeira’. ‘Então vai no Morro da Favela amanhã’. Puxa, eu não ficaria tão feliz se alguém me desse um milhão de reais. Aquele primeiro dia, eu voltei pro Morro do São Carlos e fui dormir na esteira. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Meu corpo todo estava doendo. E ao mesmo tempo, eu estava preocupado que ele não ia querer mais me ensinar. ‘Como é que eu vou?’, e na Favela ainda tinha que subir mais de uns cem degraus. Então eu fui no dia seguinte e disse pro Quinzinho: ‑ ‘Não pude vir porque estava todo doído’. E ele, sem me dar papo: ‑ ‘É assim mesmo, é assim mesmo’. E começou a me ensinar: ‑ ‘faz assim…. faz assim’.”

Aí, um dia o Juvenil apareceu. Ele disse alô, olhou pra mim e disse: ‑ ‘Vamos brincar?’ Eu olhei pro Quinzinho e como ele não disse nada, eu respondi: ‑ ‘Vamos’. O Juvenil tirou o chapéu, o colete, a gravata, e ficou nu da cintura pra cima, e nós começamos a brincar. Mas assim que nós começamos a brincar, ele me deu um chute que me pegou de raspão na cabeça. O Quinzinho estava sentado com a 7.65 enfiada na cintura. Ele estava de shorts. Naquele tempo (aprox. 1955) se usava short de futebol e não essas sungas de hoje. Todo mundo usava shorts. E ele estava com um lenço no colo, escondendo a pistola. Quando o Juvenil deu aquele chute, Quinzinho se levantou e enfiou a pistola na cara do Juvenil: ‑ ‘Não faça isso! Não faça isso, senão ele fica covarde!’.”

Elegância no traje e esmero no berimbau: Mestre Leopoldina. Foto: Acervo André Lacé.

O marginal e o mestre

Eu acho esta história, contada pelo Leopoldina, incrível. Vejam bem: o Quinzinho era um jovem e perigoso marginal, chefe de quadrilha. Quando o então jovem Leopoldina o conheceu, por volta de 1950, Quinzinho já carregava algumas mortes nas costas e já tinha tirado tempo na Colônia Penal. Poderíamos pensar o Quinzinho como uma espécie de herdeiro da violenta capoeira praticada pelas maltas cariocas nos anos 1800.

O Quinzinho, na verdade, não tinha nem um método de ensino estruturado; como já existia na Bahia, com mestre Bimba, desde 1930; ou com Sinhozinho, no Rio, no mesmo período. Leopoldina explicou como Quinzinho ensinava: ia jogando com o aprendiz e dizendo: “Faz assim… Faz assim”. No entanto, quando encarnava o “mestre de capoeira”, Quinzinho tinha uma ética impecável. Mais impecável ainda, pois naquele tempo, o Rio dos 1950, aluno aprendia capoeira levando porrada pra “ficar esperto”. E até hoje, mesmo que o mestre não bata nos aprendizes (alguns batem), é comum os alunos mais experientes (e/ou mais fortes) descascarem os iniciantes (e/ou mais fracos).

Eu vejo esta passagem como algo muito emblemático na complexidade do mundo da capoeira, com seus bizarros paradoxos, que, na verdade, não parecem tão estranhos assim, para aqueles que têm o corpo e a cabeça feitos pelos fundamentos da malícia.

O método de ensino de Artur Emídio

Mestre Leopoldina conta que o método de ensino de Artur Emídio era baseado em sequências semelhantes às de Bimba, mas realizadas ao som de berimbau tocado em ritmo rápido.

No início, segundo Leopoldina, quem tocava o berimbau na academia de Artur era mestre Paraná, outro baiano que se tornou conhecido no Rio e foi mestre, entre outros, de mestre Mintirinha. Artur só começou a tocar berimbau mais tarde.

Artur, como todo mestre, preocupava-se com a perpetuação do seu estilo. Leopoldina, por volta de 1963, começou a frequentar uma roda informal de angoleiros, estivadores do Cais do Porto, que se realizava no quintal da casa de um deles no subúrbio carioca. Artur reclamou que Leopoldina estava ficando “muito lento”, se deixando influenciar pela angola quando, segundo Artur, Leopoldina deveria “impor seu jogo”.

Veja mais

O documentário Mestre Leopoldina – O Último Bom Malandro traz a entrevista que Leopoldina concedeu a Nestor Capoeira. Veja aqui. a segunda parte.

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MESTRE PAULO GOMES

Paulo Gomes. Fonte: Machado, 1998.

Por Marcelo Cardoso da Costa

Professor de Sociologia (IFRJ – Campus Duque de Caxias) e Doutorando em Memória Social (UNIRIO/PPGMS) E-mail: marcelosociologo@yahoo.com.br https://unirio.academia.edu/MarceloCosta

PAULO GOMES DA CRUZ, 1941-1998

Paulo Gomes da Cruz nasceu em 25 de janeiro de 1941, em Itabuna, sul da Bahia ‑ região do cacau e terra natal do escritor Jorge Amado. Veio para o Rio de Janeiro como muitos outros baianos que, segundo o Iphan (BRASIL, 2007), “vieram em busca de melhores oportunidades de vida.

Na capital carioca aprendeu capoeira com o Mestre Artur Emídio, também itabunense, que tinha uma academia em Bonsucesso, subúrbio carioca. Lá treinou e se formou mestre junto a outros nomes importantes como Leopoldina, Celso do Engenho da Rainha e Djalma Bandeira. Foi nessa academia que Paulo Gomes passou a ser respeitado e conhecido como Mestre Paulo Gomes, seu nome de batismo dentro da capoeira. Sua genealogia na capoeira é a seguinte: “Filho” de Mestre Artur Emídio (1930-2011), “Neto” do Mestre Paizinho (Teodoro Ramos) e “Bisneto” de Mestre Neném (MACHADO, 1998).

Na década de 1960, Mestre Paulo Gomes foi morar na Baixada Fluminense, mais precisamente em São João de Meriti, no bairro Coelho da Rocha. Nesta região, passou a ensinar a capoeira e a formar importantes capoeiristas, dentre eles, os mestres Valdir Sales (1942-2019) e Josias da Silva, que se transformaram em seus principais discípulos e fundaram importantes academias na Baixada, respectivamente, a Associação de Capoeira Valdir Sales, no município de São João de Meriti, e a Associação de Capoeira Josias da Silva, nos municípios de Nova Iguaçu e Duque de Caxias.

Mestre Paulo Gomes e sua esposa, Aureliana, em sua academia em São Paulo. Fonte: Machado, 1998.

Em uma outra fase, Mestre Paulo Gomes foi morar na capital paulista e lá, assim como ocorreu na Baixada Fluminense, foi um dos fundadores da capoeira, criando o Centro de Capoeira Ilha de Maré e, em 1985, a Associação do Brasil da Capoeira (ABRACAP). Mestre Paulo Gomes também foi assessor do ex- governador de São Paulo, Mário Covas, a quem ajudou a instituir a Lei Estadual nº 4.649, de 1985, definindo o dia 3 de agosto como “O Dia do Capoeirista” no Estado de São Paulo.

Mestre Paulo Gomes teve morte trágica em 1998. Ele foi assassinado aos 57 anos, em São Paulo, dentro de sua academia, localizada na Ilha da Maré. A motivação do assassinato teria sido uma dívida que o mestre tinha com uma locadora de automóveis (FOLHA DE SÃO PAULO, 1998). Segundo Mestre Ribas Machado (1998):

Na ocasião, durante a noite, a aula havia acabado de terminar e muitos alunos estavam no vestiário se trocando, quando um oficial de justiça, acompanhado de mais um sujeito, por razões que só quem estava lá sabe e pode falar com certeza, descarregou sua arma no Mestre que, passado um bom tempo, foi levado para o hospital, mas não resistiu… Durante a trágica ocorrência, dois outros capoeiras foram acertados de raspão, enquanto tentavam acalmar a confusão, são eles: Mestre Fernandão (dirigente da ABRACAP na época e tradicional capoeirista na Roda da Praça da República em São Paulo) e o Formado Cristhiano.

O velório de Mestre Paulo Gomes foi realizado na sala da academia, repleto de homenagens de mestres de capoeira, que fizeram discursos e uma roda em homenagem ao mestre. Ainda segundo Mestre Ribas Machado:

Em seguida, todos foram para o cemitério São Pedro (situado na Avenida Francisco Falconi, 837 ‑ Vila Alpina ‑ São Paulo) e, lá, na presença de mais mestres e capoeiristas (que foram se juntando desde o velório), o corpo foi enterrado ao som de lamentos, chulas, rezas e berimbaus…

Mestre Paulo Gomes deixou saudades no mundo da capoeira, agradecimentos de seus discípulos e contribuições em termos de memória da capoeira, como o livro Capoeira: a arte marcial brasileira, de 1982, e o CD Roda de Capoeira da Ilha de Maré.

Para saber mais:

MACHADO, Ribas. A Capoeira de São Paulo (e do Brasil) perde Mestre Paulo Gomes. Consultado em 21/10/2019. 1998. Disponível em: http://www.fontedogravata.org/1998/09/capoeira-de-sao-paulo-e-do-brasil-perde.html

FOLHA DE SÃO PAULO. Oficial de Justiça mata assessor de Covas. In: cotidiano. Consultado em 21/10/2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff24099832.htm

BRASIL. Ministério da Cultura. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Inventário para registro e salvaguarda da capoeira como patrimônio cultural do Brasil. Brasília: MEC, 2007.

OLIVEIRA, J. P.; LEAL, L. A. P. Capoeira, identidade e gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009.

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Mestre Leopoldina – parte 1

 Por Nestor Capoeira

Eu cursava o primeiro ano da Escola de Engenharia da UFRJ, na distante (em relação à Copacabana, onde eu morava com meus pais e irmãos) Ilha do Fundão. Um dia, eu estava no pátio da escola conversando com alguns amigos quando vi, longe na estrada, um cara que se aproximava pedalando a toda velocidade.

À medida que se aproximava comecei a perceber os detalhes da roupa da figura: chapeuzinho de aba curta, desses usados pelos sambistas; um colete vermelho com bolinhas brancas, completamente aberto sobre o peito nu, que balançava no vento feito as asas de um pássaro; calça boca de sino listrada de verde pistache e cinza e um largo cinto de couro preto com uma enorme fivela na cintura; sapatos de sola plataforma com uns 3 centímetros de altura, todo cravejado de estrelinhas prateadas.

Ele entrou pátio adentro a toda velocidade e então deu um tremendo cavalo de pau e, girando, acabou parado ao lado de uma pilastra, onde calmamente encostou a bicicleta depois de saltar. Aí reparei numa coisa mais estranha ainda: ele levava, preso entre os lábios, uma espécie de graveto pintado de preto, vermelho e branco com uns 30 ou 40 centímetros de comprimento. De repente, o graveto começou a se mexer e se enrolou em volta do pescoço daquela estranha pessoa: Leopoldina criava cobras em casa, e aquela ‑ uma falsa coral era uma de suas preferidas.

Eu perguntei para um amigo: “Porra, quem é esse cara?”. Ele respondeu: “É o mestre Leopoldina. Ensina capoeira na Atlética” ‑ que era a parte desportiva dos diretórios estudantis. “Ele vem de bicicleta da Cidade de Deus até a Ilha do Fundão. É longe…” ‑ completou esse meu amigo.

Infância e Juventude

Demerval Lopes de Lacerda (1933-2007), o mestre Leopoldina, nasceu no Rio de Janeiro num sábado de carnaval. Foi criado pela mãe e depois por tias e outras senhoras que o acolheram. Menino ainda, fugiu de casa para vender balas junto a outros moleques que dominavam as linhas da Estrada de Ferro Central do Brasil, que une o centro da cidade aos subúrbios mais distantes do Rio. Foi na Central do Brasil que ele se formou e fez pós-graduação em malandragem, aproximadamente em 1950.

Adolescente, foi, por vontade própria, numa época de vacas muito magras, para o SAM ‑ o temido Serviço de Assistência ao Menor. Leopoldina não tinha reclamações desta época; ao contrário, jovem malandro criado nas ruas, entrou logo para o time dos “diretores”. Entre outras coisas, aprendeu a nadar, dando regularmente a volta na ilha onde estava situado o reformatório, o que lhe deu uma excelente forma física.

Ao sair do SAM, já com 18 anos em 1951, e velho demais para vender bala e amendoim nos trens, começou a vender jornais e logo montou uma equipe de pivetes. Pela primeira vez, começou a ganhar dinheiro, vestir altas becas e frequentar o mulherio da Zona do Mangue, onde fez fama devido ao tamanho de seu pênis. Leopoldina frequentou as prostitutas, não raro mais de uma vez ao dia, sem usar qualquer proteção, como as camisinhas de Vênus, e incrivelmente nunca pegou doenças venéreas.

A alegria de Mestre Leopoldina em dia de desfile no Sambódromo do Rio de Janeiro. Foto: acervo André Lacé.

A Capoeira

Foi nessa época que conheceu Quinzinho, Joaquim Felix, um jovem e perigoso marginal, chefe de quadrilha, que já havia cumprido pena na Colonia Penal e carregava algumas mortes nas costas. Quinzinho era capoeirista e foi o primeiro mestre de Leopoldina na arte da “tiririca”, a capoeira dos malandros cariocas, sem berimbau, descendente da capoeira das maltas dos anos 1800.

Alguns anos mais tarde, Quinzinho foi, mais uma vez, preso e, desta vez, assassinado na prisão. Leopoldina sumiu da área, com medo de represálias de marginais inimigos. Quando voltou às ruas, conheceu Artur Emídio, chegado recentemente de Itabuna, Bahia. Tornou-se aluno de Artur por volta de 1954, conhecendo então a capoeira baiana jogada ao som do berimbau.

Mais tarde, Leopoldina foi trabalhar no Cais do Porto e acabou conseguindo entrar para a Resistência, um dos ramos da estiva. Aposentou-se cedo, antes dos 45 anos de idade devido a um acidente de trabalho (que, felizmente, não deixou sequelas) e pode viver mais intensamente a vida de capoeirista e malandro alto-astral.

A Mangueira

Outro aspecto importante da vida de Leopoldina foi seu relacionamento com o samba. Saiu com a Mangueira, pela primeira vez, no carnaval de 1961, aos 28 anos de idade. A Mangueira foi a primeira escola de samba a colocar a capoeira em seus desfiles, o que deu grande visibilidade à capoeira. Leopoldina chegou a organizar um grupo de 60 capoeiristas na ala V.C. Entende, a ala show da Mangueira. E continuou saindo até aproximadamente 1974.

Eu mesmo desfilei várias vezes na Mangueira, a convite de Leopoldina, quando ainda era um novato de capoeira, por volta de 1968/1970.

Veja mais

O documentário Mestre Leopoldina – O Último Bom Malandro traz a entrevista que Leoopoldina concedeu a Nestor Capoeira. Veja aqui a primeira parte

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TOURINHO DA TAVARES BASTOS: NASCE UM CAPOEIRISTA

Por Katya Welowski (Camarão)

Manda saltar aí, capoeirista!

Gentilmente, Tourinho lançou seu corpo baixo e musculoso para frente nos paralelepípedos da íngreme ladeira da Pedro Américo. Completou o movimento com um aú que virou salto mortal para trás, os chinelos ainda colados, por milagre, aos seus pés. Meu coração deu um pulo, preocupada que, desta vez, seus braços iriam falhar e deixá-lo bater com a cabeça no chão. Os homens sentados nos bancos de plástico no lado de fora do botequim aplaudiram e ergueram seus copos de cerveja.  Tourinho abriu um sorriso largo para mim, exigindo elogios. No fundo da Pedro Américo, atravessamos o beco que liga com a Tavares Bastos e seguimos nossos próprios caminhos: Tourinho virando à esquerda, seguindo para casa por uma curta descida e eu à direita, numa caminhada mais longa, ladeira acima.

Entre 2001 e 2004, quando conduzia pesquisas etnográficas sobre a capoeira no Rio de Janeiro para o doutorado em antropologia, morei no alto da Rua Tavares Bastos, no Catete. Escolhi esse bairro por causa de seu casario histórico, demografia heterogênea e localização geográfica: eu podia chegar facilmente ao Humaitá, onde treinava com Mestre Camisa três noites por semana, e também podia pegar um ônibus ou o metrô para a Zona Norte, onde mantinha contato com vários grupos de capoeira. Antes de cursar a pós-graduação e me tornar antropóloga, comecei a viajar para o Rio de Janeiro como capoeirista, com meu primeiro mestre, Mestre Beiçola, que me apresentou a sua extensa rede de capoeiragem na Zona Norte. Quando cheguei a morar no Rio, três anos depois, para realizar trabalhos de campo, já tinha feito a transição para o ABADÁ-CAPOEIRA, treinando primeiro com Mestra Edna, em Nova Iorque, e depois com Mestre Camisa, no CIEP do Humaitá.

Descobri muitas diferenças estilísticas, pedagógicas e sociais entre a capoeira da Zona Sul e da Zona Norte. No entanto, segundo minhas pesquisas, o papel da capoeira na vida de jovens carentes de diversas áreas da cidade foi consistente. Minha experiência com esses jovens e particularmente com Tourinho, cuja história reconto aqui, me ensinou o poder transformador da capoeira. Como os mestres e professores costumavam me dizer, não era nas creches e escolas primárias particulares ou academias onde muitos deles ensinavam capoeira, mas nas comunidades pobres que os “capoeiristas são feitos”. O nascimento de Tourinho como capoeirista é marcado, em minhas anotações de campo, pela transição do meu uso de seu nome de batismo, Matheus, para o uso de seu apelido: “Tourinho”, que encapsulou sua força e teimosia e simbolizou sua nova identidade e aceitação no mundo da capoeira.

Conheci Matheus pela primeira vez na Rua Tavares Bastos, uma rua de paralelepípedos que serpenteia por um quilometro e meio até o topo de uma colina que marca o limite dos fundos do Catete. Como todo o Catete, a Tavares Bastos foi construída nos séculos XVIII e XIX, quando o comércio crescente empurrou o Rio para fora dos portos e da baía interna em direção ao mar. A Tavares Bastos e a adjacente Rua Pedro América foram esculpidas nas colinas que antes eram pedreiras que forneciam material para a construção da Igreja da Glória e outros templos cariocas. No século XIX, os proprietários de pedreiras e integrantes da classe de comerciantes construíram grandes sobrados enfeitados com tijolas portuguesas azuis e brancas e casas mais humildes ao longo da Tavares Bastos, onde viviam lado a lado com seus operários. No alto da colina, os proprietários de terra mantinham uma chácara para cultivar alimentos e fugir do calor e do caos das ruas ladeira abaixo. Depois da Segunda Guerra Mundial, devido ao crescimento da população do Rio, a área no alto da colina se transformou numa pequena favela.

A mistura arquitetônica da Tavares Bastos, agora também pontuada por torres de apartamentos do século XX, reflete uma demográfica persistentemente mista no sentido socioeconômico. Hoje, num microcosmo da cidade maior, a classe média e famílias pobres, artistas, turistas e estrangeiros expatriados convivem lado a lado, do alto ao pé da Tavares Bastos. Eu morava no alto da colina, logo embaixo da entrada da favela, num sobrado subdividido do século XIX. Na parte inferior, na última curva antes que os paralelepípedos da Tavares Bastos encontram o asfalto da Rua Bento Lisboa, fica um dos últimos cortiços existentes do século XIX. A fachada estreita da casa de dois andares, espremida entre outra casa mais moderna e bem cuidada e um muro de pedra, é enganosa. Passando pelas portas dilapidadas à direita, você descobrirá um terceiro nível subterrâneo e uma longa passarela ladeada por apartamentos de um quarto que levam a um pátio ao ar livre e um sanitário comum. Nesse ambiente sombrio e decadente viviam dezenas de famílias, entre elas Matheus e seus companheiros constantes, seu melhor amigo Erick e a prima de Erick, Debora.

Conheci Matheus pela primeira vez quando tinha seis anos de idade. Era pequeno em tamanho, mas maduro para sua idade. A gordura de bebê que persistia em suas bochechas e barriga contrastava fortemente com sua força muscular e independência impetuosa. Erick era o oposto de Matheus em todos os respeitos. Um ano mais velho, era alto e magro, sua pele bronzeada e cabelos branqueados pelas horas passadas com Debora e Matheus na Praia do Flamengo, que fica nas proximidades. Matheus era cheio de energia, rebelde e dispensava a autoridade ou afeto dos adultos, mas Erick era quieto e pensativo, disposto a andar de mãos dadas comigo quando andávamos pela rua. Debora tinha dezessete anos e, apesar de uma expressão um tanto mal-humorada e dentes malcuidados, era dona de uma beleza esguia. Tinha largado o colégio e, desempregada, passava os dias cuidando de seus irmãos menores, além de Erick – cuja mãe estava doente – e Matheus, filho de uma mãe solteira que estava sobrecarregada com nove filhos pequenos.

Nas noites de terça e quinta-feira, eu, Matheus, Debora e Erick pegaríamos um atalho para a Pedro Américo, caminhando até o casarão na entrada do Santo Amaro, uma favela um pouco maior que fica no alto da rua homônima e logo embaixo da Santa Teresa. Naldo, um graduado do ABADÁ na época, tinha começado a ensinar a crianças e adolescentes da comunidade. Naldo cresceu e ainda morava na comunidade com sua esposa, filha pequena, mãe e avó e tinha conquistado a confiança dos pais da vizinhança. A popularidade de suas aulas podia ser medida pela pilha crescente de chinelos de vários tamanhos largados na entrada do pequeno centro comunitário durante as aulas. Havia tantas meninas quanto meninos – talvez mais – uma anomalia no início dos anos 2000, mas um indício da aceitação crescente de mulheres na capoeira (e da beleza e charme de Naldo, que também mantinham as jovens mães por perto para assistirem as aulas).

Matheus era o aluno mais dotado de Naldo. Sua força atarracada e coragem – que logo o fizeram ganhar sua alcunha – deram a Tourinho uma facilidade surpreendente de dominar até os mais difíceis floreios. Naldo demonstraria um movimento acrobático uma vez e, depois de algumas tentativas, sua língua roseada aparecendo entre os lábios, de tanto se concentrar, Tourinho conseguiria replicá-lo – gritando: “Olhem, sou Naldo!” Não era apenas o jogo de capoeira do Naldo que Tourinho imitava, mas a postura e a atitude de um capoeirista mais velho. Ele andava para as aulas com ar de valentão, a camisa enfiada no abadá, mostrando com orgulho no seu peito nu o colar de miçangas que eu lhe dera após minha viagem à Angola, dizendo a quem perguntasse que vinha do “lar ancestral” da capoeira. Ele se vangloriava de suas aventuras infantis nas ruas e – incentivado por Debora – de suas várias namoradinhas.

Naldo começou a levar Tourinho para o aulão mensal de Mestre Camisa, que reúne todos os instrutores e alunos do ABADÁ do Rio para treinarem juntos. Todos gostavam de ver Tourinho jogar e de jogar com ele e logo o menino estava aceitando convites para batizados e apresentações pela cidade – um capoeirista mirim com tanta habilidade na roda sempre agradava ao público. Tourinho mostrava com orgulho as camisetas que ganhava nesses eventos, recontando os jogos passo a passo,  e como um colecionador de cartões de beisebol, que cita de cor as estatísticas dos jogadores famosos, ensinando os nomes e as qualidades de seus capoeiristas preferidos às outras crianças no casarão.

Nos meses que antecederam o batizado – aquela cerimônia importante que marcaria seu ingresso formal no ABADÁ e no mundo maior da capoeira – os alunos do Naldo tentaram adivinhar com grande entusiasmo quais professores os “batizariam”. Na manhã do batizado, Erick e Tourinho me esperaram impacientes em frente de casa, recém-saídos do banho, abadás enrolados e firmemente amarrados com suas corda cruas, que em breve seriam substituídas por novos cordões de aluno pintados de amarelo nas pontas. Eles correram para o CIEP na Glória, onde dezenas de professores e alunos do ABADÁ (o número de capoeiristas facilmente superando o do público) estavam se reunindo. A cerimônia durou várias horas e incluiu a entrega dos cordões e apresentações de maculelê, puxa de rede e samba de roda que os alunos do Naldo tinham ensaiado por várias semanas. Para Tourinho, Erick e muitos dos jovens capoeiristas presentes, até aquele momento, o batizado foi o evento mais importante de suas jovens vidas.

Nem todos os alunos do Naldo tinham o talento corporal de Tourinho. A Erick lhe faltava a mesma coragem e por isso tinha dificuldade com os movimentos acrobáticos. Ele me preocupava, porque estava sempre na sombra de Tourinho e nunca conseguia a sensação do voo de um corpo no ar que tantos jovens capoeiras desejam e curtem. Como um aluno me disse, “a capoeira é como voar para a lua”. Mas chegar à lua pela capoeira pode assumir várias formas. Um dia, descendo a Tavares Bastos, ouvi os sons melódicos de um berimbau viola. Virando a última curva na rua, vi Erick de pé, em frente à sua casa, rosto erguido para o sol, tocando o pequeno berimbau com todo o coração. Dente, um capoeirista habilidoso e confeccionador de instrumentos, tinha percebido que Erick sentia a atração pela música –, muitas vezes ficando depois da aula para aprender ritmos no atabaque ou lidando desajeitadamente com o berimbau do Naldo. Então, Dente fez para Erick um instrumento de tamanho infantil. Todos os dias, Erick tocava seu berimbau, tornando-se mais habilidoso e encontrando seu próprio lugar na capoeira.

Discretamente, sem alarde, Debora também evoluiu como capoeirista, ao lado dos meninos de quem cuidava. No início, ela teve receio de treinar porque era muito mais velha e alta que os outros alunos no casarão. Mas finalmente a convenci a tentar e ela persistiu obstinadamente, melhorando com o tempo e transitando de seu papel de cuidadora para ser capoeirista por conta própria. No início, a mãe de Debora ficou preocupada: “Minha filha já é brigona!” – me disse. Era verdade que Debora frequentemente exibia hematomas e arranhões, sinais reveladores de brigas com seus irmãos e outras crianças na rua. Mas a capoeira no casarão não incitava a agressão. Pelo contrário, forneceu aos jovens uma forma alternativa de expressão corporal. Muitas vezes, fiquei impressionada quando as rasteiras ou martelos que atingiam seu alvo – algo que na rua teria provocado uma briga – foram aceitos amigavelmente nas rodas infantis.

A declaração de Tourinho – “Sou Naldo!” – verbalizou um desejo comovente que percebi em muitos dos jovens capoeiristas que conheci nas favelas: o desejo de se tornar alguém com habilidade e reconhecimento. Segundo um capoeirista mais velho que cresceu na Rua Santo Amaro, numa entrevista:

Eu praticamente vivia na rua, não ficava parado em casa. Um dia eu assisti uma roda de rua na feira da Glória e o que mais me impressionou eram os garotos de meu tamanho jogando.  E pensei eu tenho que fazer isso.  Porque uma pessoa chega e você não sabe quem é, não é ninguém.  Mas o cara entra na roda, começa jogar e você vai ver ele de outra forma – vai saber que ele é respeitado.  E eu queria isso também – respeito onde eu morava. Meu bairro tem muitas pessoas pobres e muita criminalidade.  E a marginalidade, as crianças e adolescentes têm mais tendência a trilhar. A capoeira me deu outro rumo.

Naldo estava muito consciente não só do potencial de Tourinho, mas de sua própria responsabilidade com o jovem capoeirista: “Ele quer ser como eu, portanto tenho que tomar cuidado com o jeito que me comporto. Às vezes ele fala para as pessoas que sou o pai dele e eu deixo porque quero fazer parte de sua vida, não apenas na capoeira”. Quando Naldo descobriu que Tourinho estava se comportando mal na escola, apareceu na sala de aula um dia, para espanto de Tourinho, para conversar com seu professor.  Quando o comportamento de seu discípulo tinha melhorado, Naldo o recompensou com material escolar novo.

Mas Naldo também observou, não sem orgulho, que Tourinho tinha algo dentro dele que fatalmente o fazia um capoeirista: “Tourinho é a essência da capoeira. A capoeira está no sangue dele. Mesmo que ele pare de treinar amanhã, ele sempre será capoeirista”. Ao mesmo tempo em que pareceu naturalizar o talento de Tourinho para a capoeira, Naldo também reconheceu astutamente que é o ambiente em que crianças como Tourinho crescem que as torna capoeiristas: “As crianças da comunidade não têm limites. Elas sempre têm que superar barreiras e se adaptar às novas circunstâncias. Portanto, se você lhes dá um pouco de segurança, eles aprendem rápido”. Ironicamente, a falta de “limites” vem de crescer num ambiente com recursos limitados. Quando os únicos playgrounds são as ruas onde o futebol é jogado com os pés descalços e as pipas soltadas dos telhados, as crianças desenvolvem uma destreza audaz e corporal. Quando os recursos são escassos – às vezes nada mais que uma pipa ou um senso de autoestima – as crianças desenvolvem ousadia e criatividade (e às vezes malandragem e agressão) para segurar o que é deles. Essas atividades promovem a desenvoltura e autoconfiança, habilidades de sobrevivência necessárias em condições de vida precárias. A capoeira também cultiva essas qualidades, mas com um senso de graça, beleza, liberdade e camaradagem.

No final, talvez a capoeira tenha sido demasiadamente fácil para Tourinho. Ele pode ter se identificado com ela, mas nunca desenvolveu o compromisso, o próximo passo importante na jornada de um capoeirista. Em 2015 eu infelizmente soube pelo Facebook que Tourinho tinha falecido. Ao que parece, a capoeira não foi uma força forte o suficiente em sua jovem vida. Quando adolescente, ele sentiu a atração do tráfico de drogas. Naldo, ainda ensinando e respeitado em Santo Amaro, aproximou-se dos traficantes da comunidade e pediu que proibissem Tourinho de se envolver. Ele tinha potencial como capoeirista. Eles concordaram. Mas quando Tourinho se mudou com sua família para outra comunidade, onde talvez mais uma vez ele se sentiu como um “João ninguém”, não havia ninguém para impedi-lo. Acabou preso e enviado para uma penitenciária onde, em circunstâncias incertas, morreu.

O que impediu Tourinho de se comprometer com a capoeira? Por que ele não perseguiu seu sonho de infância, como ele sempre me disse, de um dia se tornar um professor “como Naldo”? Será que Tourinho era em demasia “a essência da capoeira”? Rebelde demais? Ou será que a capoeira não apresentou um desafio suficientemente grande para impedi-lo de perseguir seu próximo objetivo. Talvez ele tenha aprendido muito jovem a voar alto demais, e – como Ícaro, que voou muito perto do sol com asas de cera – caiu cedo demais.

 

Matheus Bernardo (13/07/1995 – 04/05/2015) Descansa em Paz.

 

 

Biografia da Autora: Katya Wesolowski (Camarão) é professora de Antropologia Cultural e Dança na Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Atualmente está escrevendo um livro de memórias etnográficas sobre seus mais de 20 anos jogando, pesquisando e agora ensinando a capoeira. Seus trabalhos anteriores incluem: “Professionalizing Capoeira: The Politics of Play in Twenty-First-Century Brazil.” (Latin American Perspectives. Vol. 39, No. 2, 2012); “From ‘Moral Disease’ to ‘National Sport’: Race, Nation and Capoeira in Brazil.” (In: Sports Culture in Latin American History, University of Pittsburgh Press, 2015).  E, no prelo, “Imagining Brazil in Africa: capoeira’s transatlantic roots and routes” (In: Capoeira and Globalization: Interdisciplinary Studies of an Afro-Brazilian Cultural Form. Cambridge University Press) and “Baile Funk and Kuduro: (dis)articulations of national belonging in Brazil and Angola” (In: Dancing the African Diaspora: Theories of Black Performance in Motion. Duke University Press).  Este artigo foi extraído de sua tese de doutorado, “Hard Play: capoeira and the politics of inequality in Rio de Janeiro” (Columbia University, 2007), baseado em pesquisas apoiadas pela Wenner-Gren Foundation.