Aonde a gente chegou, hein!

Julio Cesar de Tavares – Prof. Titular de Antropologia da UFF

Quem seria capaz de imaginar há um século, que hoje a capoeira estaria no mundo, de modo absolutamente independente e carreando, a cada dia, mais e mais adeptos para a arte do jogo da vadiação?

Certamente, não foi sem sofrimento, esforço e dedicação. Tampouco foi sem humilhação, frustração, perseguição e exclusão. A capoeira por definição nativa foi, é e continuará sendo a arte da dissimulação (ginga/mandinga), seja na Capoeira Regional, Angola, Contemporânea ou Independente, e profundamente inquietada pela ação rebelde (resistência dissimulada/resiliência) contra as injustiças do Estado sobre o cotidiano dos indivíduos e grupos sociais subalternizados. Este é, quer se queira, quer não, um dos aspectos mais intrigantes, em quaisquer de suas vertentes ou denominação ‑ a permanência da comunicação libertária, demonstrada pelo interesse de indivíduos potencializados por uma determinada condição de rebeldia ao se deixarem atrair pela capoeira. Emergindo em permanentes recriações e projeções pela população afrodescendente, há na capoeira uma carreira infindável de criatividade para além das próprias condições que a criaram.

A despeito de se encontrar no seu fazer, até o início do século XX, concentrada nas camadas mais subalternas da população dos grandes centros urbanos, como em Salvador, Rio de Janeiro e Recife, e além de ser classificada por conceitos obscuros e malignos, repletos de associações negativas, a capoeira sempre conseguiu circular por outras camadas sociais e magnetizar indivíduos de outras origens étnico-raciais. Por isso mesmo, sempre demonstrou uma gigantesca plasticidade na ultrapassagem de fronteiras raciais e sociais. E, de modo surpreendente, adentrou ambientes totalmente característicos da Casa Grande, embora preservando o traço, a marca, a linguagem, a levada, o ritmo, a nostalgia e lamentos típicos da tradição ancestral presente na musicalidade negra africana em toda sua diáspora. Este processo paradoxal permitiu que a capoeira se recriasse e se adaptasse às demandas de um mundo em permanente transformação, que, a cada dia, se refunda sob o signo do que denominamos contemporâneo.

Hoje, em pleno 2020, a capoeira não somente se ancora, crescentemente no conhecimento apurado, cuidadoso e meticulosamente centrado na pesquisa técnica, fisiológica, musical e artesanal, como tem suporte nos diversos campos acadêmicos da História, Antropologia, Etnomusicologia, Artes da Performance, Literatura, Educação Física, etc. O que mais nos chama a atenção é a velocidade com que tudo isso se deu. Em pouco mais de meio século – se consideramos 1966 o marco da expansão da capoeira.

Sim, Mestre Pastinha estive presente no I Festival das Artes Negras, em Dakar, Senegal, e daí a música de Caetano que canta: “Pastinha já foi à África, Pastinha já foi a África, pra mostrar capoeira do Brasil” (…) E lá apresentou, no solo do continente mãe, a matriz da locomoção africana celebrada na ginga da diáspora, o fato transnacional de maior relevância, que foi a inserção da capoeira no mundo, no contexto daquele primeiro grande encontro pan-africano e afrodiaspórico. O I Festival de Arte Negra, em Dakar, em 1966, com a presença do Mestre Pastinha, enunciava ao mundo a assimetria dinâmica, a movimentação ritmada conduzida pela “levada” do berimbau, em sincronicidade múltipla com a infinita combinação de movimentos no chão, em pé, em voo e, ainda, acrescida de ludicidade, brincadeira e permanente alegria e sorriso de encantamento.

Dali em diante, a capoeira ganhou o mundo. Conseguiu disseminar em velocidade exponencial sua fenomenal expansão, até então impossível de imaginar. Testemunhamos que tudo ocorrera de maneira suave e cautelosa, canibalizada pelo mundo e exemplificada como sintoma da emergente transnacionalização da cultura afro-brasileira.

Depois de sua apresentação na África, a capoeira se expande pelos Estados Unidos e Europa, ainda no final dos anos 1960. Até que Katherine Dunham, a dileta aluna do antropólogo M. Herskovits e considerada por Levi-Strauss a fundadora da Antropologia da Dança, com seu exame etnográfico das danças religiosas do vodu e da santeria no Haiti, interfere no rumo da cultura afro-brasileira.

E o fez, transcendendo a dimensão coreográfica, ao aliar o corpo do capoeirista a uma política diaspórica de reconhecimento e visibilização. Dunham realiza este fato por intermédio de um gesto profissional ao contratar praticantes de capoeira, como, por exemplo, Eusébio Lobo, o Mestre Pavão (hoje professor da Unicamp), para sua companhia de dança e, ainda, como professor auxiliar de suas aulas na Universidade de Saint Louis e no desenvolvimentgo de sua Companhia de Dança, a “Katherine Dunham Company”, composta exclusivamente por negros e especializada neste tipo de dança.

Mas é preciso dizer também qua, além do gesto profissional para com a Capoeira e o capoeirista-professsor Eusébio, Katherine realizou um gesto político de enorme grandeza para o Brasil. Trata-se da denúncia pública de racismo que ela fez, em 1950, quando esteve em visita ao Brasil, em temporada com a sua Companhia, muito antes de contratar Eusébio que só ocorrerá nos anos 60. Então, nesta passagem pelo Brasil ela foi proibida se hospedar no Hotel Esplanada de São Paulo, que não aceitava negrso como hóspedes. Consciente politicamente de seu papel e origem étnico-racial, a humilhação do racismo tupiniquim não conseguiu calá-la pois o fato se transformou em escândalo nacional, sacudindo o meio político, jurídico e intelectual. Gilberto Freyre, Afonso Arino e parlamentares iniciam uma grande mobilização que demonstrasse a não-impunidade para casos como este.

De fato, Afonso Arinos aprova a primeira Lei Anti-racista no Brasil, que leva o seu nome: Lei Afonso Arinos de 1951. Gilberto Freyre sobre o caso sacudiu os meios políticos e culturais e o projeto do Deputado Afonso Arinos foi aprovado por adesão total. A Lei Afonso Arinos, de 1951, hoje revogada. Katherine Dunham deu uma contribuição involuntária para a aprovação da primeira lei que tentou punir a discriminação racial no Brasil.

Regressando à Capoeira, como imaginar a capoeira registrada como patrimônio imaterial brasileiro em 2009? Menos provável seria prever a circulação da categoria “patrimônio imaterial”, hoje corrente no campo dos estudos antropológicos e históricos sobre Patrimônio. No início dos anos 1980, isso era tão inviável de imaginar quanto a queda do muro de Berlim (1989). Hoje, solidamente instalada em mais de 150 países (em alguns, inclusive, como parte integrante de políticas oficiais em educação), a capoeira se encontra em franca expansão, do mesmo modo que ocorreu com o jazz, jiu-jitsu, judô, o balé e a música clássica, exemplos de grandes performances, musical e corporal, que alcançaram expressão transnacional.

Imaginem que, neste preciso momento em que trafegamos, por entre estas letras e linhas, dezenas de milhares dos mais de duzentos mil praticantes de capoeira, em todo o mundo, estão cantando uma chula, tocando um instrumento e jogando um jogo na roda de capoeira! Podem vocês ainda imaginar que esse jogo, com vários séculos de origem e cujos jogadores se comunicam nesta prática por intermédio do idioma português brasileiro, ganhou o mundo, conquistou adeptos e se expandiu sem que houvesse qualquer interferência do estado brasileiro para que tal ocorresse? Essa força da diáspora da capoeira é testemunhada por nossos diplomatas e reconhecida pelo Ministério das Relações Exteriores, que reitera a onipresença, fulgor e vitalidade dessa arte-jogo-luta em sua importante função na disseminação do idioma corporal e vernacular brasileiro.

Constatamos que, de fato, a capoeira é uma performance-luta-jogo interseccional que se edifica como uma arte do movimento em meio a uma constelação de muitas outras artes. Certamente, é nesta teia complexa de conexões que a caracteriza – corpo em movimento, música, canto, lírica poética das ladainhas e artesania de instrumento –, que se encontra o grande poder, magia, encanto e mistério da capoeira. E assim, magnetizando centenas de milhares de praticantes, se multiplica por toda a Europa, por todos os estados dos Estados Unidos, países da América do Sul, vários países do Oriente Médio, Ásia e África, além dos países do Caribe.

Trata-se de uma arte que experimenta a interseccionalidade. Articula e se tematiza em múltiplas outras artes como na literatura (por exemplo, na obra de Jorge Amado), na sua crescente presença no cinema, novelas, teatro, dança, artes plásticas e, ultimamente, em jogos digitais. Alcança o reconhecimento cabal de sua extensiva força performativa da cultura afro-brasileira e de todo esforço transnacional da comunidade capoeirista.

Rigorosamente, admite-se que a capoeira denota efetiva contribuição ao desenvolvimento de múltiplas habilidades cognitivas. Por isso, este patrimônio brasileiro deveria integrar a educação escolar, da infância à universidade, como expressão tradicional da prática afro-brasileira de resistência/resiliência, de extrema coordenação motora, que integra, em harmonia e assimetria, uma combinação indissolúvel de múltiplas inteligências. Incorporada ao repertório cultural da pedagogia nacional, torna-se uma atualizada representação pós-colonial da resistência à dominação e às injustiças cognitivas. Converte-se a fantástica arte da dissimulação numa verdadeira epidemia transnacional, que encanta e apaixona homens e mulheres, crianças e adolescentes, adultos e idosos, todos pelo mundo. Ao mesmo tempo, promove uma permanente reinvenção dos movimentos, apuração técnica e sensibilidade estética em corpos de sujeitos encarnados de memória corporal singular e global.

Confira ainda do autor o livro Dança de Guerra.

Existe um aspecto que precisa ser apontado como de grande relevância neste processo de expansão de fronteiras da capoeira. Sim, podemos dizer que a capoeira expandiu as fronteiras da cultura nacional pois quebrou a visão provinciana que amarrava a ideia de cultura no Brasil enquadrada em noções localizadas no Brasil de dentro com uma cultura de fora. De repente, capoeiristas acreditaram que expandiriam as fronteiras do Brasil ao levar uma cultura desde o mais de dentro dos mundos do Brasil para os mundos bem de fora. Neste processo, a cultura de dentro foi levada para o mundo de fora. Eis que, a capoeira e outras culturas de dentro compartilham esta invasão ao mundo de fora, como a puxada de rede, o samba de roda, o maracatu, o maculelê, o jongo, todos conduzidos em articulação com a capoeira, em demonstrações públicas, como pertencentes a uma rede cultural marcadamente afro-brasileira em diáspora pelo mundo.

Este faro, fato e fator demarca a produção de lideranças da arte da capoeira, os Mestres, que hoje precisam ser mais bem dimensionados. Ao encabeçar este avanço pelo mundo de uma larga rede de culturas Made in Brazil com marca, matriz e motricidade afro-brasileiras, a capoeira consolida uma inquestionável liderança não refletida, ainda que manifestada. Desta forma, foi estabelecido um verdadeiro empreendimento cultural, em algum momento desafiante para muitos daqueles heróis fundadores, que ousaram partir sem muito tino do que poderiam semear. Alguns não conseguiram ver a criação deste marco globalizante, tampouco a pujança do que se tem instalado como capoeira no mundo. E como está a gestão por detrás desta máquina potente da sabedoria corporal e quem a domina, de fato, nos ambientes mais lucrativos? Os afro-brasileiros? Por quê? Uma pergunta que precisa ser conhecida para que se revele o papel explícito da política da prática transnacional da capoeira.

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